Penúltima Pagina

Por Gabrieli Andrade - 15 abril


Karoline estava em seu quarto, na cadeira que ganhou de presente de uma vizinha de sua antiga casa quando completou 15 anos. Agora, aos 25,  a cadeira permanecia confortável e muito agradável de se olhar. Foi sentada nela, que Cleiton a pediu em casamento, duas semanas atrás, antes de... tudo acontecer.

Era como um pesadelo, sem fim. Karoline só desejava que alguém a puxasse e chacoalhasse-a para despertar desse sono terrível para que ela pudesse abraçar Cleiton de novo, e nunca mais o soltar. Foi um acidente. Ela sabia. Mas aquele carro controlado por algum adolescente imprudente e bêbado, lhe tirou o amor de sua vida, seu primeiro namorado, seu melhor amigo, seu noivo.

Naquela estrada banhada de sangue e carcaças do carro de Cleiton, ela paralisou. Ali, naquela curva da Rua 19, sua vida pararia. Não para sempre, mas ela sabia que grande parte de si ficaria ali para sempre, amarrada aos últimos segundos dele, ao seu possível pedido de socorro, ao seus olhos se fechando e dizendo adeus.

Cleiton amava cartas, foi assim que pediu Karoline em namoro, três anos atras na faculdade. Ela, perdida naquele quarto, olhando para uma fotografia dos dois no verão passado em uma praia, começou a escrever no seu diário, pela última vez.

Meu doce e amado Cleiton,

Você era aquele som suave do balançar das arvores, nas noites de verão. Aquela calma que se absorve ao observar o infinito mar, eu encontrava nos seus olhos.

Você era meu destino, como se inevitavelmente fossemos nos encontrar. Como se nosso caminhos estivessem entrelaçados, como um laço feito pelas mãos do nosso Deus.

Você era meu motivo para ser melhor, parecia que eu nunca fosse ficar tão amorosa, solidária ou sociável como você era. Sua presença acelerava meu coração mesmo após anos juntos. Agora na sua eterna ausência, sinto-me deficiente de uma parte de mim, talvez a mais importante, você.

As estrelas eram sua maior paixão, agora tenho certeza que até elas se rendem ao seu encanto. Durma com os anjos, meu doce e eterno amor. A saudade parece um poço sem fim, mas sei, que onde estiveres, estarás bem. Esta será a última vez que escrevo aqui,  na penúltima página deste diário que você me ajudou a construir, mas nunca deixarei de escrever pra você, acredito que podes me ver aí de cima, apenas não vejo razão aqui sem você, no diário, no parque da praça, na nossa praia preferida, na minha vida... Olhe por mim, estarei sempre pensando em como você me fez feliz, eu te amo.

Fechou o diário, guardou-o em uma caixa no fundo do seu guarda-roupas. Precisava superar aquela dor, precisava "seguir em frente". Mas não hoje, não agora. Agora ela só queria chorar, com todas as forças que ainda lhe restavam, e adormecer,  esquecendo que aquilo realmente acontecera.


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